Ricochete

Que margens têm os rios
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?

Que plavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro por nós?

Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?

in As Maçãs de Orestes de Natália Correia
04.12.2006       [537]       Poesia

Haiku

Haiku é uma forma minimalista de poesia japonesa. É composta por versos curtos e um longo, sendo que o primeiro (curto) deve ter 5 sílabas, o segundo (longo) deve ter 7 sílabas e o terceiro (curto) deve ter 5 sílabas.
Não deve ser composta por mais de duas frases e os versos também não devem rimar entre si.
As temáticas são dirigidas para a natureza, para as estações do ano, ou mais especificamente para as impressões deixadas por um momento.



01.11.2005       [0]       Poesia

Semelhança

Semelhança

É ser quase invisível ser presente.
Na distância é que os astros aparecem;
E nas profundas trevas sepulcrais
É que podemos ver
Esta figura humana da Tragédia,
Esta máscara grega que faz medo
Aos deuses e aos demónios! Esta imagem
Acendida de cores palpitantes,
Além das quais se escondem num tumulto,
Outras vagas imagens, pretendendo
Vencer e dominar, romper a névoa,
Surgir à luz do dia!
Só nas trevas,
Se ilumina a expressão das criaturas,
Como um céu nocturno, Ó lua nova,
O teu perfil de prata que me lembra
O perfil de Virgílio a revelar-se
Na morta escuridão de dois mil anos.

[excerto] - Teixeira de Pascoaes
08.06.2005       [0]       Poesia

O Espaço Vazio

Quem fez de tua carola
a bôca que não responde
e se verga à brisa e corta
nosso espanto e nossa fome?

Qual a fonte que te banha,
que não mana, nem se esconde
entre as ramas e na fronte
os cabelos nos derrama?

De que és feita, de que asa
sem inércia e vôo, ausente,
mas que embalam, nas sacadas,
os leques? O rio que mente,

que oculta seu curso e praias,
teu segrêdo também cala.
Que escondes, ó flor? Desmaia
em nosso olhar tua côr

de ar sem céu, sem perfume,
sôpro que morre na flauta,
cornamusa muda, ovelha
sem lã, aprisco e pastor.

Por entre a mão frágil, fina,
que dobra a haste sem trama
vegetal, que não te liga
nem à terra, nem ao drama

do meu sonho, ó inexistente
que em pura beleza existes,
porque foges? De que chama
nasce e morre o breve ausente?

Vences a sombra... A lembrança,
ó lânguido quartzo, ó nada,
mentira de vergel mansa,
é uma rêde imaculada,

pois morres sem ver os dias
no teu exílio sem tempo,
sem que recebas a herança
dos jarros das madrugadas.

Ó vertigem, claro ente
de um paraíso feroz,
sal e carne dessas ondas
que as tarrafas nunca prendem,

que raízes tens na tarde
dividida pelo sol
e o seu prenúncio lunar?
Porque ficas, puro e só,

cenaturo de flor e ar,
que inventas a nostalgia
de ser eterno, não sendo
martírio de um raro olhar?

Alberto da Costa e Silva in O Tecelão
17.05.2005       [0]       Poesia

...

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

Eugénio de Andrade
11.05.2005       [0]       Poesia

Boa Noite

Canção Da Névoa

Tristezas leva-as o vento;
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma à tona de água
E à flor da noite o luar...

Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais no ar?

Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...

Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções
Que ficaram por cantar!

Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.

Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.

E o Poeta solitário
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...

E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai
No vento que anda no ar...

Teixeira de Pascoaes
06.04.2005       [0]       Poesia

...

Quando ouvires o toque
                      dos sinos
lembra-te
eles guardam a filigrana
dos despojos dos dias.

Maria Alexandre Dáskalos
03.04.2005       [0]       Poesia

O corpo não espera...

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge de Sena
31.03.2005       [0]       Poesia

Senhora, partem tão tristes...

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

de João Roiz de Castelo-Branco
16.11.2004       [0]       Poesia

Um dia ainda me hei de senti assim...

Peer of Gods he seemeth to me, the blissful
Man who sits and gazes at thee before him
Close behind thee sits, and in silence hears thee
Silvery speaking,

Laughing love's low laughter. Oh this, this only
Stirs in troubles heart in the breast to tremble!
For should I but see thee a little moment,
Straight is my voice hushed;

Yes, my tongue is broken, and through and through me
'Neath the flesh, impalpable fire runs tingling;
Nothing see mine eyes, and noise of roaring
Waves in my ear sounds.

Sweat runs down in rivers, a tremor sizes
All my limbs, and paler than grass in autumn
Caught by pains menacing death, I falter
Lost in the love-trance.


Sappho

26.10.2004       [0]       Poesia

A Noite em Versos

As Paixões

a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.

Ademir Antonio Bacca
24.09.2004       [0]       Poesia

Femina Contra Mundum

The sun was black with judgment, and the moon
Blood: but between
I saw a man stand, saying: 'To me at least
The grass is green.

'There was no star that I forgot to fear
With love and wonder.
The birds have loved me'; but no answer came --
Only the thunder.

Once more the man stood, saying: 'A cottage door,
Wherethrough I gazed
That instant as I turned -- yea, I am vile;
Yet my eyes blazed.

'For I had weighed the mountains in a balance,
And the skies in a scale,
I come to sell the stars -- old lamps for new --
Old stars for sale.'

Then a calm voice fell all the thunder through,
A tone less rough:
'Thou hast begun to love one of my works
Almost enough.'

Gilbert Keith Chesterton
01.09.2004       [0]       Poesia

Em jeito de Boa Noite II

Que acontece a uma música,
quando deixa de soar;
e a uma brisa que deixa
de voar,
e a uma luz que se apaga?
Morte, diz: que és tu, senão silêncio,
calma e sombra?

                  de Juan Ramón Jiménez

29.08.2004       [1]       Poesia

Post - Scriptum

         Agora Regresso à tua claridade.
         Reconheço o teu corpo, arquitectura
         duma cidade ardente, povoada,
         flutuando sem limites na espessura
         da noite cheirando a madrugada.

         Acordaste na aurora -a bica rumorosa
         de peixes e de açucenas;
         pensativa rosa abrindo nas areias,
         alta e branca, branca apenas,
         e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

         Estás de pé nos meus versos e no trigo
         ainda quente dos beijos que te dei;
         tão jovem!, e mais que jovem, sém mágoa!,
         como no tempo e que tinha medo
         que te afdogasses numa gota de água.

                  in As Palavras Interditas de Eugénio de Andrade

05.07.2004       [0]       Poesia

Sou sombra...

Nada

Sou sombra que passa na vida chorando.
Sou sombra que passa na vida cantando,
Chorando e cantando, na vida tão triste.
Sou nuvem de pó
Que em vão corre o mundo
Na aza do vento;
E encontro-me tão só
No abismo sem fundo
Do meu pensamento...
Sou agua tão leve
Que nasce da fonte
E corre para o mar;
Sou floco de neve
Que cai sobre o monte,
Lembrando o luar;
Sou ave pairando
No mais alto cume
Da montanha, além;
Sou pedra que rola,
Sou onda quebrando,
Sou como um perfume
Que no ar se evola;
Sou nada também.

in Tristeza Divina de Anrique Paço d'Arcos

29.06.2004       [0]       Poesia

Ouro da Juventude

            Fugi do ouro dos teus sonhos
                        e
            perdi a juventude.


                        de Maria Alexandre Dáskalos

14.04.2004       [0]       Poesia

De que me rio eu?...

De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.

de António Patrício

13.04.2004       [1]       Poesia

Memórias - O Amante

Este poema desperta-me algumas memórias.

O Amante

      Logo será tempo de amar e não amar
      amando, não o amor que em nós se faz
      como os pêlos das feras, que surgem de seu sangue,
      mas o que corta a nossa carne como a chuva
      e arde como um sol não recordado
      ao relento, de noite, junto à fonte
      do orvalho, mas terroso, estupro e cacto.
      Febre do céu, o que amar amamos
      não é tempo de amar agora, mas
      o huno amor, o chão que corrompemos
      com boi e grão, êste partir em fome.


                                    in O Tecelão de Alberto da Costa e Silva

12.04.2004       [0]       Poesia

Poema do Dia

Depois do Sol...


Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

Cecília Meireles

07.02.2004       [0]       Poesia

Secreta Morada


Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .

Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.

Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.

Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada

abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.

Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!

de Angela Santos

01.02.2004       [0]       Poesia

Outono

É assim que o outono me faz sentir...

Do Outono e do Silêncio

Ah como eu sinto o outono
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...


in Legenda da luz e da vida de Álvaro Moreyra

25.11.2003       [0]       Poesia