Que margens têm os rios
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?
Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?
Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?
Que plavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro por nós?
Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?
Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?
Haiku é uma forma minimalista de poesia japonesa. É composta por versos curtos e um longo, sendo que o primeiro (curto) deve ter 5 sílabas, o segundo (longo) deve ter 7 sílabas e o terceiro (curto) deve ter 5 sílabas.
Não deve ser composta por mais de duas frases e os versos também não devem rimar entre si.
As temáticas são dirigidas para a natureza, para as estações do ano, ou mais especificamente para as impressões deixadas por um momento.
in Escreva
Semelhança
É ser quase invisível ser presente.
Na distância é que os astros aparecem;
E nas profundas trevas sepulcrais
É que podemos ver
Esta figura humana da Tragédia,
Esta máscara grega que faz medo
Aos deuses e aos demónios! Esta imagem
Acendida de cores palpitantes,
Além das quais se escondem num tumulto,
Outras vagas imagens, pretendendo
Vencer e dominar, romper a névoa,
Surgir à luz do dia!
Só nas trevas,
Se ilumina a expressão das criaturas,
Como um céu nocturno, Ó lua nova,
O teu perfil de prata que me lembra
O perfil de Virgílio a revelar-se
Na morta escuridão de dois mil anos.
Quem fez de tua carola
a bôca que não responde
e se verga à brisa e corta
nosso espanto e nossa fome?
Qual a fonte que te banha,
que não mana, nem se esconde
entre as ramas e na fronte
os cabelos nos derrama?
De que és feita, de que asa
sem inércia e vôo, ausente,
mas que embalam, nas sacadas,
os leques? O rio que mente,
que oculta seu curso e praias,
teu segrêdo também cala.
Que escondes, ó flor? Desmaia
em nosso olhar tua côr
de ar sem céu, sem perfume,
sôpro que morre na flauta,
cornamusa muda, ovelha
sem lã, aprisco e pastor.
Por entre a mão frágil, fina,
que dobra a haste sem trama
vegetal, que não te liga
nem à terra, nem ao drama
do meu sonho, ó inexistente
que em pura beleza existes,
porque foges? De que chama
nasce e morre o breve ausente?
Vences a sombra... A lembrança,
ó lânguido quartzo, ó nada,
mentira de vergel mansa,
é uma rêde imaculada,
pois morres sem ver os dias
no teu exílio sem tempo,
sem que recebas a herança
dos jarros das madrugadas.
Ó vertigem, claro ente
de um paraíso feroz,
sal e carne dessas ondas
que as tarrafas nunca prendem,
que raízes tens na tarde
dividida pelo sol
e o seu prenúncio lunar?
Porque ficas, puro e só,
cenaturo de flor e ar,
que inventas a nostalgia
de ser eterno, não sendo
martírio de um raro olhar?
Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?
Canção Da Névoa
Tristezas leva-as o vento;
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma à tona de água
E à flor da noite o luar...
Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais no ar?
Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...
Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções
Que ficaram por cantar!
Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.
Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.
E o Poeta solitário
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...
E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai
No vento que anda no ar...

Quando ouvires o toque
dos sinos
lembra-te
eles guardam a filigrana
dos despojos dos dias.
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Peer of Gods he seemeth to me, the blissful
Man who sits and gazes at thee before him
Close behind thee sits, and in silence hears thee
Silvery speaking,
Laughing love's low laughter. Oh this, this only
Stirs in troubles heart in the breast to tremble!
For should I but see thee a little moment,
Straight is my voice hushed;
Yes, my tongue is broken, and through and through me
'Neath the flesh, impalpable fire runs tingling;
Nothing see mine eyes, and noise of roaring
Waves in my ear sounds.
Sweat runs down in rivers, a tremor sizes
All my limbs, and paler than grass in autumn
Caught by pains menacing death, I falter
Lost in the love-trance.
As Paixões
a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
The sun was black with judgment, and the moon
Blood: but between
I saw a man stand, saying: 'To me at least
The grass is green.
'There was no star that I forgot to fear
With love and wonder.
The birds have loved me'; but no answer came --
Only the thunder.
Once more the man stood, saying: 'A cottage door,
Wherethrough I gazed
That instant as I turned -- yea, I am vile;
Yet my eyes blazed.
'For I had weighed the mountains in a balance,
And the skies in a scale,
I come to sell the stars -- old lamps for new --
Old stars for sale.'
Then a calm voice fell all the thunder through,
A tone less rough:
'Thou hast begun to love one of my works
Almost enough.'
Que acontece a uma música,
quando deixa de soar;
e a uma brisa que deixa
de voar,
e a uma luz que se apaga?
Morte, diz: que és tu, senão silêncio,
calma e sombra?
de Juan Ramón Jiménez
Agora Regresso à tua claridade.
Reconheço o teu corpo, arquitectura
duma cidade ardente, povoada,
flutuando sem limites na espessura
da noite cheirando a madrugada.
Acordaste na aurora -a bica rumorosa
de peixes e de açucenas;
pensativa rosa abrindo nas areias,
alta e branca, branca apenas,
e mar ao fundo, o mar das minhas veias.
Estás de pé nos meus versos e no trigo
ainda quente dos beijos que te dei;
tão jovem!, e mais que jovem, sém mágoa!,
como no tempo e que tinha medo
que te afdogasses numa gota de água.
in As Palavras Interditas de Eugénio de Andrade
Nada
Sou sombra que passa na vida chorando.
Sou sombra que passa na vida cantando,
Chorando e cantando, na vida tão triste.
Sou nuvem de pó
Que em vão corre o mundo
Na aza do vento;
E encontro-me tão só
No abismo sem fundo
Do meu pensamento...
Sou agua tão leve
Que nasce da fonte
E corre para o mar;
Sou floco de neve
Que cai sobre o monte,
Lembrando o luar;
Sou ave pairando
No mais alto cume
Da montanha, além;
Sou pedra que rola,
Sou onda quebrando,
Sou como um perfume
Que no ar se evola;
Sou nada também.
in Tristeza Divina de Anrique Paço d'Arcos
Fugi do ouro dos teus sonhos
e
perdi a juventude.
de Maria Alexandre Dáskalos
De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.
Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.
Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.
de António Patrício
Este poema desperta-me algumas memórias.
O Amante
Logo será tempo de amar e não amar
amando, não o amor que em nós se faz
como os pêlos das feras, que surgem de seu sangue,
mas o que corta a nossa carne como a chuva
e arde como um sol não recordado
ao relento, de noite, junto à fonte
do orvalho, mas terroso, estupro e cacto.
Febre do céu, o que amar amamos
não é tempo de amar agora, mas
o huno amor, o chão que corrompemos
com boi e grão, êste partir em fome.
in O Tecelão de Alberto da Costa e Silva
Depois do Sol...
Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .
Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!
Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .
Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora
Pelos silêncios a sonhar . . .
Cecília Meireles
Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
de Angela Santos
É assim que o outono me faz sentir...
Do Outono e do Silêncio
Ah como eu sinto o outono
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
in Legenda da luz e da vida de Álvaro Moreyra